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Quarta-feira, Novembro 30

Começam a nascer planos de contingência para a desagregação do euro


29 Novembro2011  23:30

Silva Lopes teme, mas cenariza fim do euro. Ferreira do Amaral considera-o inevitável. Não estão sós nas análises.
Rui  Peres Jorge
rpjorge@negocios.pt

Ontem de manhã os gregos souberam pelo seu diário "ekathimerini" que a Icap, a maior plataforma electrónica do mundo de transacções cambiais, está a testar os seus sistemas para voltar a trabalhar com dracmas, a antiga moeda grega. Planos de contingência face à crise europeia, justificou a empresa. Em Lisboa, não se ouviu, ainda, tal coisa. Mas ontem pela tarde, na Faculdade de Direito de Lisboa (FDL), economistas reputados também já traçavam os seus planos de contingência para uma desagregação do euro.

José Silva Lopes, ex-ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal, admitiu sem reticências que pode não haver saída para o euro: "Se o BCE não começar a imitar a Fed e o Banco de Inglaterra [como credor de último recursos dos Estados] a UE vai para o desastre, e vai para o desastre rápido", afirmou, acrescentando que, ao nível orçamental, "é preciso um orçamento federal que se veja" para fazer face a políticas comuns e a necessidades de estabilizadores automáticos. O homem que acompanhou de perto as anteriores intervenções financeira em Portugal, nos anos 70 e 80, admite que se possa ter ultrapassado o ponto de não retorno, sendo por isso necessário começar a cenarizar. A desagregação do euro pode assim tomar uma de três formas: um colapso com desintegração desordenada; a saída de alguns países da moeda única, como Portugal e Grécia; ou a saída da Alemanha e dois ou três países do Norte. 

Os receios de Silva Lopes são uma quase certeza para João Ferreira do Amaral, professor do ISEG e talvez o economista que mais se destacou, desde o início, na crítica ao projecto de moeda única. 

"O fim da Zona Euro como a conhecemos está à vista. Julgo mesmo ser inevitável", afirmou, num tom sereno de quem defende a saída de Portugal do euro. Mas, frisa, essa saída tem de ser concertada com a UE, e deve acontecer apenas após uma estabilização da actual crise. A receita para a estabilização foi partilhada com Stuart Holland (Faculdade de Coimbra) e Jacques Bourrinet (Universidade d'Aix-Marseille III), os outros membros do painel que ontem debateu o futuro da Zona Euro na conferência "25 anos na União Europeia, 25 anos de Instituto Europeu" da FDL. "Não há volta a dar". É essencial "uma intervenção sem limites e anunciada como tal do BCE", e "as obrigações europeias serão sempre necessárias" para estabilizar a dívida e para promover o crescimento, afirmou Ferreira do Amaral. De igual forma, Holland detalhou uma proposta de obrigações europeias que permitiriam aliviar a pressão dos mercados e financiar plano de estímulo económico a nível europeu. Jacques Bourrinet, pelo seu lado, insurgiu-se contra o "dogma monetarista" que domina a política europeia, considerando que "uma mutualização da dívida europeia [através de obrigações e de monetização da dívida através do BCE] é condição 'sine qua non' para resolver a crise". Mas se os líderes políticos ainda conseguissem salvar o euro, Portugal deve sair na mesma? 

Ferreira do Amaral foi o único que olhou para lá de 2013 e diz que sim. Mesmo que o plano de ajustamento português funcione e a Europa salve o euro, "Portugal chegará a 2013 numa situação ultra débil e continuará com uma moeda demasiado forte: nessas condições um incumprimento da dívida será inevitável", afirmou, defendendo que, "com o acordo os parceiros" Portugal deverá voltar a um sistema de câmbios flutuantes em bandas definidas face ao euro. É uma questão de sobrevivência económica, defende.

Bom, quando se quebra o tabu e se começa a falar sobre o fim do Euro é que o fim está próximo.

É como com a desvalorização da moeda. Quando se começa a negar a possibilidade da desvalorização é que esta está ali mesmo, ao virar da esquina.

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