O historiador Rui Ramos escreveu um artigo de opinião no Correio da Manhã sobre o que acontecerá à UE se os alemães não pagarem.
(reproduzo o artigo no fim deste post pois não sei quanto tempo o CM o mantem activo)
O que o autor escreve é que houve convergência de consumo entre os Estados da UE mas não houve convergência de produtividade o que até está correcto.
Depois escreve que
os economistas explicam-nos que, fora do euro, já teríamos passado por uma bancarrota argentina. Há tempos, o dr. Soares imaginava que sem a UE haveria tanques na rua.
Ora bem, o problema é outro. Se estivessemos no estado em que estamos mas estivessemos fora do Euro teriamos problemas, problemas graves mas se calhar até não tão graves como iremos ter pois teriamos sempre instrumentos para resolver o problema como a Argentina teve que embora ligando a sua moeda ao dólar, não a substituíu pelo dólar.
Mas, como escrevi, o problema é outro, se não estivessemos no Euro estariamos no estado em que estamos?
É que a diminuição de produtividade e o aumento do consumo foram provocados pelo Euro que distorceu totalmente a nossa economia!Mas num ponto o autor do artigo tem razão, a continuar o actual estado de coisas a Alemanha e outros países ricos vão ter de abrir os cordões á bolsa e se eles não quiserem ou não puderem fazê-lo nem se imaginam quais as consequências.
Num dos artigos de opinião do Expresso o Dr. Daniel Bessa (que também se reproduz no fim deste artigo) escreveu que se não reduzirmos os rendimentos da população em geral, o país terá
uma gestão controlada pelos credores ou a saída da área do Euro. A primeira é seguramente a menos má.
Este artigo do Dr. Daniel Bessa, num certo sentido responde (embora seja anterior) ao primeiro artigo, se os alemães não abrirem os cordões à bolsa, ou há uma redução dos rendimentos (não se explica como) ou se entrega a gestão financeira do país aos credores ou então sai-se do Euro.
Só não concordo com o Dr. Daniel Bessa quando ele sugere que a saída do Euro seria a pior das soluções pois as anteriores são impossíveis numa democracia.
No fundo as hipóteses que nos restam são três:
-Os alemães pagarem;
-suspensão da democracia;
-saída do Euro.
A primeira é irrealista, a segunda é terrível e acabará em guerra. Só nos resta a terceira que embora provoque conflitos sociais graves nos permitirá a prazo recuperar dos vinte anos que perdemos com a adesão à CEE/UE.
---------------------------------------Se os alemães não pagarem?No passado fim-de-semana, Sócrates fez gazeta à cimeira europeia para ficar em casa, a aquecer-se ao calor do rebanho socialista em congresso. Ferreira Leite estranhou. Mas, como foi decretado que tudo o que a senhora diz é gafe até prova em contrário, também a atenção nacional preferiu Espinho a Bruxelas. No entanto, a ausência de Sócrates ainda pode vir na História: como símbolo da distracção paroquial de que somos capazes, mesmo à beira do vulcão.
A cimeira de Bruxelas pôs o ‘Wall Street Journal’ e o ‘Economist’ a especularem sobre o fim do actual modelo de unidade europeia. Não é alarmismo sem fundamento. Os países mais pobres do continente (como Portugal) convergiram com a Europa rica em consumo, mas não em produtividade. Agora sofrem por isso: a leste, desvalorizam-se as moedas; a sul, encarece o crédito externo. E todos esperam e pedem o socorro dos países ricos – isto é, da Alemanha.
E se os alemães não quiserem pagar? E se, pagando, isso não chegar? Habituámo-nos a dar por adquirido o tio rico da Europa, e a pensar que ele nos garantiria tudo. Os economistas explicam-nos que, fora do euro, já teríamos passado por uma bancarrota argentina. Há tempos, o dr. Soares imaginava que sem a UE haveria tanques na rua. O que acontecerá se a UE, tal como a conhecemos, for uma baixa da crise? Preferem não pensar nisso?
Rui Ramos, Historiador (in Correio da Manhã 6 de Março de 2009)
---------------------------------------Escola indispensávelAlguns países da área do euro chegaram a este período de crise económica grave com elevados défices públicos (do Estado) e externos (dos residentes no seu conjunto). A crise tem vindo a agravar estes défices; e os credores mostram-se cada vez mais relutantes em continuar a financiá-los.
Em todos estes países, torna-se absolutamente necessário reduzir despesa interna - a começar pela pública (mesmo se não é o melhor momento para o fazer). Na ausência de uma cultura de poupança, a redução da despesa privada só pode ser conseguida pelo congelamento ou mesmo pela eventual redução dos rendimentos da população em geral.
Se este caminho não for percorrido, restam duas alternativas: uma gestão controlada pelos credores ou a saída da área do euro. A primeira é seguramente a menos má.
A segunda produziria o mesmo resultado (redução do rendimento e da despesa interna) através de uma desvalorização da moeda que viesse a ser introduzida, no mínimo de uns 20% ou 30%; inflação e taxas de juro subiriam de imediato.
A questão é cada vez mais discutida, sobretudo pelos credores, que escrutinam à lupa os sinais transmitidos tanto pela agenda política interna como pela população em geral (o que diz e o que reclama nas ruas).
Daniel Bessa (in Expresso 3 de Fevereiro de 2009)