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Domingo, Março 14

Ainda o ataque à Grécia

Recebi no meu mail o texto que se segue e que é muito pertinente.

Enquanto os discursos dominantes atribuem a situação económica crítica da Grécia a uma má gestão camuflada por aldrabices das contas públicas, Karl Müller analisa-a como a consequência de políticas externas ao país. Classicamente, põe em causa o papel das agências de classificação para favorecer a especulação. Sobretudo, e isto é muito pouco conhecido, põe em causa a política económica agressiva de Berlim que enriqueceu a Alemanha em detrimento dos seus parceiros mais pequenos da zona euro.

Atenas, princípio de Fevereiro de 2010. Por toda a parte, nesta cidade de mais de 3 milhões de habitantes que explode literalmente, encontram-se pessoas amáveis, abertas, comunicativas e trabalhadoras. Serão elas responsáveis pelo facto de a União Europeia condenar o seu país ao pelourinho? E será culpa delas que desde há algumas semanas ou seu país seja manchete nos jornais de uma forma tão negativa? Ou será que os verdadeiros responsáveis encontram-se alhures?


Quem são estas famosas "agências de classificação"?

Dia 11 de Fevereiro, o presidente do grupo socialista do Parlamento Europeu, Martin Schulz, no decorrer de uma entrevista à Deutsch-landfun declarou: "Mencionaram as agências de classificação que, parece, baixaram a classificação de solvabilidade da Grécia. Gostaria de falar esta manhã com os chefes de Estado e de governo [eles estavam reunidos a 11 de Fevereiro para falar da crise financeira da Grécia] a fim de saber quem são estas agências de classificação e que interesse têm elas em declarar que as medidas são ineficazes, que é preciso aumentar taxas de juro dos empréstimos que serão concedidos a qualquer momento quer por países quer por bancos privados. Alguém vai receber estes juros, mas quem? Quem tem interesse em que se aumentem as taxas? As agências de classificação. Mas quem são elas? Esta é uma das pequenas questões que apresento de passagem pois nunca são debatidas".

A culpa cabe aos especuladores monetários?

Rudolf Hickel, especialista de esquerda em questões financeiras, exprimiu os seus temores ao declarar em 11 de Fevereiro ao Spiegel Online: "Uma falência da Grécia poderia causar a ruína de todo o sistema do euro". Segundo os media alemães, toda a agitação a propósito da Grécia foi provocada voluntariamente por aqueles que especulam com as moedas, "pois os beneficiários de uma eventual falência do Estado são sobretudo aqueles que especulam em Bolsa com as moedas". Segundo Hickel, "quanto mais pequeno for o país, mais ele é entregue brutalmente aos especuladores. [...] Após a Grécia, a Espanha e a Itália estarão na linha de alvo dos especuladores".

O capital financeiro age ao seu bel-prazer

Para o chefe dos socialistas europeus, trata-se de um dilema: por um lado eles aferram-se com todas as suas forças à UE e ao euro para os seus projectos de governo mundial. Por outro lado, o capital financeiro — os responsáveis socialistas estão sempre ao seu serviço — age ao seu bel-prazer e nunca se sabe com certeza a favor de quem ou contra quem ele se decide neste ou naquele caso. Actualmente, não apenas para com o euro, mas sobretudo em relação ao dólar? Diz-se que os Estados Unidos, este ano, vão lançar 2,5 mil milhões de empréstimos públicos. É muitíssimo dinheiro e a concorrência aumenta nos mercados financeiros. Em todo o caso, isso dá uma chicotada nos negócios. Hickel diz simplesmente: "Os especuladores não visam um curso particular do euro que reflectisse adequadamente a actividade económica. Eles sacam muito mais lucros com um curso extremamente instável". Segundo o Neue Zürcher Zeitung de 11 de Fevereiro, a bolsa de futuro de Chicago, que é determinante para o negócio dos derivados monetários, actualmente aposta mais do que nunca contra o euro.

Faz-se negócios com os juros

Também se fazem negócios com os juros. Só em Abril e Maio de 2010, empréstimos do Estado grego num montante de cerca de 40 mil milhões chegando à maturação deverão ser reembolsados por meio de novos empréstimos, novos créditos, contudo não mais a 3% e sim a cerca de 6%. Os prestamistas chamam a isso "prémio de risco" por causa da dívida pública grega. Na realidade, eles assim duplicam os seus lucros pois até aqui a Grécia sempre pagou. Parece que este ano, um total de 2,2 mil milhões de empréstimos públicos chegam à maturação na zona euro. Uma grande parte deverá ser financiada recorrendo aos mercados financeiros. E se o mundo das finanças conseguisse também aqui — em Portugal, na Itália e na Espanha e igualmente em França e na Bélgica, talvez mesmo na Alemanha — fazer escalar as taxas de juro com a ajuda das agências de classificação? Um por cento a mais representa 22 mil milhões de euros. Isto seria um negócio formidável... em todo o caso durante tanto tempo quanto os povos e os Estados participarem neste jogo sinistro. E o que aconteceria se o euro não pudesse mais ser sustentado, se a UE afundasse e se por exemplo a Grécia não reembolsasse mais as suas dívidas senão em condições justas?

A Alemanha lucrou com o euro... em detrimento de outros países

Antes de mais nada, a Alemanha perderia enormemente o seu poder. Até agora a sua indústria exportadora, em particular, lucrou consideravelmente com a UE e a introdução do euro. Actualmente, as exportações representam cerca de 50% do PIB.

O jornal Junge Welt titulava em 9 de Fevereiro: "Falência made in Germany. A ameaça do afundamento das finanças públicas de Estados da Europa do Sul é a consequência directa da política agressiva da Alemanha em matéria de comércio exterior". No artigo podia-se ler: "Desde há décadas, Berlim conduz uma política económica agressiva fundamentada nas exportações. [...] A maior saída para o capital alemão é a UE. [...] A moeda comum europeia privou os países da zona euro expostos a esta ofensiva exportadora alemã da possibilidade de restabelecer a competitividade das suas economias procedendo a desvalorizações da sua moeda. O enorme desequilíbrio económico que daí resulta manifesta-se de maneira flagrante através da Grécia, esta candidata à falência que, em 2008, importou mercadorias alemãs no valor de 8,3 mil milhões de euros ao passo que as suas exportações chegavam apenas a 1,9 mil milhões de euros.

Para o autor do artigo, uma causa importante do "êxito" alemão reside numa "estratégia de empobrecimento do mercado interno: Entre 2002 e 2008, os salários brutos aumentaram em média 15,2% na Alemanha, mas 31,9% no conjunto dos países da UE".

O euro conduz a um controle total dos Estados da UE

A grande indústria alemã tem "necessidade" de países como a Grécia, mas a longo prazo isto não funciona senão se a política alemã puder controlar cada vez mais estes países. E é para isso que serve a actual política da cenoura e do bastão: o bastão das restrições para a população, do controle por comissários europeus para o governo. O novo presidente da UE, Hermann van Rompuy, declarou após a cimeira de Bruxelas: "Pedimos ao governo grego para aplicar todas as medidas de maneira rigorosa e determinada". Mas a cenoura foi igualmente apresentada aquando da reunião de 11 de Fevereiro dos chefes de Estado e de governo: "Não abandonaremos a Grécia", declarou a chanceler alemã Angela Merkel (comunicado oficial).

Isto quer dizer que a Alemanha faz saber que em caso de insolvência da Grécia, ela está pronta a ajudar financeiramente... a fim de sustentar o euro e não, sem dúvida, por solidariedade.

E qual é o preço? A inflação? Ainda mais sacrifícios para o contribuinte alemão e sobretudo em detrimento dos trabalhadores? Daniel Gros, director do Centro for European Policy Studies (CEPS) de Bruxelas, informou à revista alemã Manager Magazin em que consistia o "controle da crise" em países como a Grécia: "Trata-se precisamente de baixa dos salários no sector privado. Para mim é o essencial". E ele não pensava apenas na Grécia.

Os líderes socialistas europeus louvarão isto como um acto de solidariedade. Os chefes de governo socialistas dos Estados europeus, na véspera do encontro dos chefes de Estado e de governo, haviam pedido uma "ajuda" urgente para a Grécia (e os outros países do Sul da Europa que eram postos em causa pelos jornais). Observemos bem realmente: os socialistas europeus também querem a UE e o euro.

O governo alemão aspira a um estatuto de potência mundial?

Retornemos mais uma vez à Alemanha. A agência de informação privada estado-unidense Stratfor Global Intelligence publicou a 8 de Fevereiro uma análise interessante sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo ( "Germany's Choice" ). Durante décadas a Alemanha foi o tesoureiro da Europa sem desfrutar de um peso político real, mas agora ela não é mais um "observador passivo" munido de um livro de cheques". Merkel é a primeira chanceler que governa "liberta do peso dos pecados passados". Ela já não está disposta a pagar pela Europa "em detrimento dos interesses alemães".

Mas ela pagará apesar disso, ou antes, por causa disso, no caso da Grécia. Seria certamente "inteligente" que a Alemanha cessasse de pagar e que a UE e o euro se afundassem, mas sem a UE e o euro a Alemanha não poderia mais pretender o estatuto de potência mundial. (Na verdade, para a população pouco importa.) Contudo, o governo Merkel importa-se e o preço que os outros Estados da UE devem pagar para isso é o controle absoluto da Alemanha sobre o Banco Central Europeu e por isso mesmo sobre os orçamentos de todos os países da zona euro.

Mas não vemos perfilar-se aqui uma megalomania que já se manifestara outrora na Alemanha? O que é que torna o governo alemão tão certo de que não poderá encontrar-se em breve à beira da falência? Ou existem planos sinistros da direita e dos Verdes tendo em vista uma renovação "alemã verde" que não recua diante de nada?

Mas retornemos à Grécia. Aquando das manifestações contra o plano de rigor imposto pela UE ao novo governo, podiam-se ler ou ouvir slogans como "Não aceitaremos o desemprego e a pobreza para permitir ao capital monopolista que faça grandes lucros" ou "Não pagaremos nem um cêntimo à plutocracia". O secretário-geral do sindicato grego dos funcionários Adedy declarou: "Eles prometeram que os ricos pagariam mais ao invés disso eles se servem dos pobres. É esta política que combatemos, não a tentativa de ultrapassar a crise".

Os gregos estão fartos da UE

Tem a Grécia alguma possibilidade de se safar no seio da UE e da zona euro? Dificilmente! Um artigo publicado no Neue Zürcher Zeitung de 12 de Fevereiro intitulado "A zona euro, zona de conflitos" recordou mais uma vez uma falha fundamental do euro: Contra toda a razão económica, a introdução do euro devia permitir criar um super Estado europeu. Mas isto era quimérico desde o princípio: "As tensões no seio da união monetária europeia são mais ou menos o resultado do facto de que os políticos sempre viram na união monetária um instrumento destinado a acelerar e a impor a integração política da Europa. Faz-se uma utilização abusiva da instituição monetária a fim de visar objectivos situados para além da política monetária, o que representa um perigo para a estabilidade da moeda e para a economia".

É possível que se a Grécia saísse da UE sofresse num primeiro momento um certo número de inconvenientes económicos e outros — mas se ela permanecer na UE, os inconvenientes multiplicar-se-ão consideravelmente. Os atenienses dizem que estão fartos da UE e é normal. Não confiar senão nas suas próprias forças e desfrutar da liberdade é mais digno do que levar cada vez mais uma vida de escravos.


Sexta-feira, Março 5

Já se queimam bandeiras da União Europeia!


As coisas estão a melhorar. Os povos da Europa, adormecidos durante anos por uma monstruosa máquina de propaganda que mandava tudo o que era positivo (real ou inventado) para o facto de se estar na União Europeia e tudo o que era negativo para os ineficientes e corruptos governos nacionais, começam a despertar do pesadelo.

Um exemplo é o que está a acontecer na Grécia em que já se queimam bandeiras da União Europeia (ver aqui).

Chegamos a um ponto de viragem, Bruxelas deixa cair a máscara e deixa cair a máscara impulsionada pelos eurofanáticos que querem a todo o custo um super estado europeu centralizado atropelando tudo e todos.

Quando já era evidente que o Euro era um falhanço, em vez de estudar as medidas para resolver o problema, o que se fez foi aprovar a (Constituição), digo, o Tratado de Lisboa que não veio resolver nenhum problema, antes pelo contrário, veio lançar ainda mais confusão num edifício já muito confuso.

As manifestações na Grécia são boas notícias para todos nós.

E, é por isso que estão a ser abafadas pela Comunicação Social. Acabo de ver o jornal da RTP1 em que o seu correspondente em Atenas fala dos problemas da Grécia como se de problemas internos se tratassem. Nem numa palavra sobre referências à UE ou ao facto de se ter queimado a sua bandeira.

Quem está em crise? A Grécia ou o Euro?

Este livrinho, Contra o centralismo europeu Um manifesto autonomista, da autoria do Professor João Ferreira do Amaral, professor catedrático do Instituto Superior de Economia é uma obra muito interessante e que pode lançar alguma luz sobre o que está a acontecer.
Para já convém chamar a atenção de que este livrinho não foi impresso agora, foi impresso em Outubro de 2002, pouco depois do Euro ter sido lançado e ainda em plena euforia do Euro.
Ora este livro, na página 68 e seguintes, parágrafo 3.1. Um exemplo do centralismo: a moeda única, diz o seguinte:

Temos um exemplo do fracasso dessa concepção de centralismo no caso da moeda única europeia. Para além de outras razões, foi argumentado muitas vezes que a justificação da moeda única europeia estava na necessidade de adaptar as economias europeias às condições criadas pela globalização económica e financeira. Erro grave. Transformou-se o espaço económico europeu num espaço paquidérmico e rígido, impedindo a resposta flexível e adaptada às necessidades de cada Estado que seria permitida pela autonomia monetária de cada país.
Um exemplo baseado na teoria económica basta para demonstrar que a moeda única é um projecto de quem nada entende de macro-economia ou de aprendizes de feiticeiro...
A longo prazo, a taxa de juro de uma economia deve estar próxima do seu ritmo de crescimento económico. De outra forma, o crescimento será desequilibrado e não sustentável. Ora, a União Europeia consagrou nos seus objectivos (e bem) o princípio da convergência real entre as respectivas economias, ou seja, a aproximação dos níveis de vida entre as diversas regiões comunitárias. Isto significa que, para haver convergência real, tem de haver crescimentos diferenciados, devendo as regiões mais pobres crescer a um ritmo superior às regiões mais ricas.
Ora, com moeda única e portanto política monetária única, a taxa de juro será idêntica para todas as regiões comunitárias que façam parte da zona euro, o que significa que deixa de se cumprir a condição de equilíbrio de a taxa de juro ser igual ao ritmo de crescimento económico. Se, por exemplo, a taxa de juro for inferior à taxa de crescimento, tal gerará uma permanente tensão inflacionista que fará perder competitividade às regiões que crescem mais.
Esta perda de competitividade levará ao endividamento progressivo dessas regiões em relação ao exterior e, a breve trecho, ao fim do crescimento económico.
Ou seja, aquilo que à partida parecia ser uma condição favorável, uma taxa de juro baixa, a prazo torna-se um factor bloqueador do crescimento económico.
………
É justamente devido à globalização que é conveniente os países manterem a autonomia da sua poçítica monetária, pois é o único instrumento possível para reequilibrar as economias quando sobre elas incindem choques externos. No passado, quando o papel das multinacionais era reduzido e se podiam impor medidas proteccionistas ao comércio externo, as economias tinham outros instrumentos de defesa. Hoje, na ausência de política monetária própria, estão completamente indefesas.


Lendo este texto, já com uns oito anos de idade, percebe-se melhor o que está a acontecer à Grécia (e à Irlanda, Espanha, etc.), tinham uma taxa de juro desadequada às suas economias, estas dispararam e, dez anos depois, estoiraram tal como o Prof. Ferreira do Amaral previa que acabasse por acontecer.
Portanto a culpa não é da Grécia, a culpa até está bem identificada, a culpa é do Euro.
Mas ninguém diz isto lançam-se as culpas para cima dos gregos, cruxificam-se os gregos e pronto, o Euro saí incolume!
Pior, há ainda quem tenha a lata de dizer que a sorte da Grécia é ter o Euro senão estariam muito piores.
Mas, como sempre, quando cheira a cadáver aparecem os abutres.
Agora Políticos alemães sugerem que Grécia venda ilhas (ver aqui):

A Grécia deveria vender suas ilhas desabitadas, propriedades e companhias para ajudar a reduzir o alto déficit orçamentário do país do sul europeu, sugeriram representantes de partidos da coalizão de centro-direita da chanceler alemã, Angela Merkel. "Alguém que está falido deve transformar em dinheiro tudo que tem para saldar seus credores. A Grécia possui propriedades, companhias e ilhas desabitadas, que podem ser usadas para reduzir a dívida", afirmou Josef Schlarmann, chefe do grupo de empresas de médio e pequeno porte ligado aos partidos conservadores da Alemanha, segundo reportagem do jornal Bild publicada hoje.

A principal vantagem de todo este imbróglio é o de mostrar à luz do dia o disparate que foi o Euro e acelerar o seu fim.
É que o Euro, como o Prodi, o Presidente da Comissão que antecedeu Durão Barroso, disse, não era um projecto económico, era um projecto político destinado a acelerar a unificação da Europa.
A ideia é visível, o Euro iría provocar o caos e tornar as populações europeias mais receptivas a um aumento do poder central europeu.
Como as coisas estão é pouco provável que o consigam sem provocar uma revolta.