Miguel Coutinho é um comentador do Diário Económico e publicou uma crónica que me chamou a atenção (ver
aqui).
Esta crónica é originada por uma carta do António Chora da Comissão de Trabalhadores da AutoEuropa.
Segundo parece, numa crónica anterior, Miguel Coutinho tinha criticado António Chora por este ter apoiado a greve geral.
Pois não é que António Chora lhe responde numa carta muito bem escrita e não é que Miguel Coutinho a publica, o que não era obrigado de nenhuma forma a fazer, pois não se invocava nenhum direito de resposta.
Mais, Miguel Coutinho, ao contrário do que é habitual na nossa imprensa, publica a carta sem a desancar, nem à carta nem a António Chora, limitando-se, elegantemente, com uma citação de Winston Churchill, a manter o seu ponto de vista quanto à actuação de António Chora.
É de dar os parabéns a António Chora pela carta elegante que escreveu e, principalmente a Miguel Coutinho pelo espírito democrático que mostrou e que vai rareando na nossa Comunicação Social.
Quanto à carta de António Chora, tomo a liberdade de a reproduzir (PTO significa Pau para Toda a Obra):
Meu caro Miguel Coutinho, ao ler alguns dos seus artigos, parece-me ver em si um defensor desta nova categoria profissional (PTO), pensando que a mesma salvará o mundo, PTO no vínculo às empresas, PTO no desempenho de funções, PTO na submissão aos interesses instalados, PTO na política.
Quero clarificar, desde já que, nada tenho contra os PTO desde que, para isso, tenham formação. Infelizmente, esse não é o nosso caso e é por este ser um país de PTO sem formação, que falta competência e que estamos na situação económica e social em que estamos.
Os trabalhadores, neste país de dirigentes e de alguns empresários PTO sem formação, saem de casa todos os dias para trabalhar, trabalham aos ritmos que lhes impõem, produzem o que lhes exigem e os PTO dirigentes tudo esbanjaram e esbanjam.
Os políticos, analistas e comentaristas PTO, por falta de formação, andaram anos a tentar enfiar-nos pela cabeça abaixo as grandezas da Irlanda. Do sr. Presidente da República aos ditos especialistas em finanças, todos nos quiseram impingir aquele exemplo.
Hoje, estamos mal, temos milhares de desempregados, temos a justiça que temos e da qual não nos orgulhamos, temos os governantes que temos, temos os pedidos de desculpa que temos, mas ao que parece estamos um pouco melhor que a Irlanda, vamos ver até quando, com tanto PTO mal formado.
Foi com muito orgulho que participei no PREC e é com o mesmo orgulho que hoje, passados 35 anos, olho para o que fiz e para o que recusei fazer. Para mim foi um período de aprendizagem, de saudável aprendizagem, tal como o actual período que todos vivemos continua a ser um momento de formação, para mim. Como diz um sindicalista austríaco, o sindicalismo não é um monumento, é um momento que devemos viver em cada dia, por isso, com aqueles que sempre me têm acompanhado na Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, temos feito os momentos necessários à defesa do emprego, dos salários, da competitividade, até de PTO (com formação para a Obra), tudo para garantir a continuidade desta empresa em Portugal e trabalho com direitos.
Sei, ou penso saber, que hoje a maioria dos analistas económicos vive num mundo bipolar e esquizofrénico e isso afecta o poder de análise, levando-os a adorar o capital como um monumento.
Voltando à pergunta: o que são 500 carros?
Digo-lhe o que disse à jornalista do ETv, "são custos para os quais a empresa está preparada" e tanto assim é, que foi a própria empresa que, duas semanas antes da Greve Geral, nos solicitou a marcação de um dia de ‘Down Day' (dia de fábrica fechada) para 24 de Novembro.
O perigo, na sociedade em que vivemos hoje não vem dos ex-PREC. Ele vem dos tiques autoritários e ditatoriais do capital nacional e internacional, esses sim conservados em naftalina e que tanto o PREC, como o período democrático que se lhe seguiu não conseguiram pôr fim."
Antonio Chora, Workers Council Coordinator da Autoeuropa