A socióloga Maria Filomena Mónica publicou um comentário sobre a Expo-98 no Expresso que é um desastre, ou antes, é uma manipulação dos factos.
A seguir apresento o texto que esta socióloga escreveu com alguns comentários meus (o texto em itálico com fundo amarelo, os meus comentários em caracteres correntes).
Querem saber os motivos que nos levaram ao actual precipício? Recordando um método que me foi ensinado no curso de Sociologia, tentarei responder através de um «estudo de caso».
Os estudos de caso são perigosos pois não podem ser generalizados. Os estudos de caso podem servir para muita coisa mas não para se tirarem conclusões globais.
Eis como este funciona: pega-se num acontecimento, tido como exemplar, e analisamo-lo em profundidade. A recente notícia, veiculada pela Ministra Assunção Cristas, no sentido de que o chamado Parque Expo iria ser extinto, fez-me recuar ao século passado, concretamente a 1998, quando o país andou a deitar foguetes, enquanto eu, macambúzia, desconfiava que a coisa iria terminar mal.
??? Esta senhora é uma pessimista...
Passaram-se treze anos. Nunca mais pensei na parola comemoração.
Parola? Porquê? Eu até gostei. Serei parolo?
Desconhecia até que existia um grupo empresarial, intitulado Parque-Expo, com orçamento próprio, 170 funcionários efectivos e um presidente que, no ano passado, auferiu uma remuneração-base de 9.025 euros por mês. A sua missão era contribuir para o planeamento e regeneração urbanas. Tendo em conta o estado das nossas cidades, concluo que nada fizeram.
Por acaso até fizeram. Claro que não mudaram o país todo, mas fizeram-no onde foram chamados a fazer (programa POLIS).
Lembremos os factos. A Parque-Expo nasceu em 1993 para montar a Expo-98, um «evento» que os responsáveis nos garantiram que se pagaria a si próprio.
E não se pagou?
A marina – que virou pântano – o Pavilhão de Portugal – que se transformou num fantasma – e as habitações - cada vez mais juntinhas - gerariam lucros fenomenais. Tudo se faria, explicaram-nos, sem ir ao nosso bolso. Mas não foi isso que aconteceu.
Até foi...
No dia em que me desloquei à Expo,
Foi lá? Será que esta senhora é parola?
vi uns cartazes com os seguintes dizeres: «Depois de 98, a Expo continua». Em Portugal, é perigoso criar uma instituição, visto que, uma vez formada, a sua dissolução é impossível.
??? Afirmações sem sentido!
Para além do objectivo circense, a Expo tinha ambições. Nos locais onde haviam existido refinarias e armazéns, no Poço do Bispo, em Braço de Prata e em Cabo Ruivo, erguer-se-ia uma Nova Cidade.
Até aqui pensei estar perante um simples caso de estupidez. Mas estas frases mudaram a minha opinião. Esta senhora está a tentar manipular o leitor.
No local da Expo não havia refinarias e armazéns, o local da Expo era uma imensa lixeira cheia de gaivotas que viviam do lixo.
Onde actualmente está o Oceanário estava um monte imenso de lama.
Recuperar aquela zona teria custado muitas centenas de milhões (de contos que era o que havia na altura).
O gabinete do arquitecto Vassalo Rosa desenhou os prédios, hotéis, centros comercias, hospitais e escolas, que ocupariam os 98 hectares da feira, mais os 350 destinados a ser urbanizados. Quando os gestores se aperceberam de que o défice da Exposição iria ser mais elevado do que o previsto, a tentação para se construir em altura e para os espaços-verdes ficarem subalternizados começou a fazer-se sentir.
Desconheço se há alguma veracidade nisto. É possível que o projecto tenha sofrido alterações para aumentar a sua rentabilidade.
No dia em que fechou as portas, a dívida da empresa à banca era de 1,3 mil milhões de euros; hoje, o empreendimento ainda deve 185 milhões de euros.
Exacto. Só é pena esta senhora não referir como é que a dívida à banca tem sido paga. Não com dinheiro do Orçamento de Estado mas com o dinheiro gerado pela própria Parque Expo.
Por favor, não me venham falar do valor dos «activos». Enquanto a empresa não for ao mercado verificar se há compradores e qual o preço por que querem adquirir os ditos, o resto é conversa.
É verdade que se construíram infra-estruturas – estações de caminho de ferro, estradas e pontes – mas tudo isto poderia ter sido realizado sem fogo de artifício.
Sim, mas ter-nos-ia saído mais caro e teria levado, certamente, muito mais tempo.
A Ministra Assunção Cristas teve a coragem de pôr fim à Parque-Expo, o que não impedirá que tenhamos de pagar a feira popular que, ali para o lado de Xabregas, Cavaco Silva e Antonio Guterres montaram. Moral da história: não há feiras grátis.
Que estupidez.
O Estado entrou para a Expo 98 com 500 milhões de Euros e a UE com duzentos milhões. Somando aos 1,3 mil milhões pedidos à banca, isto significa que a Expo teria custado uns 2.000 milhões de Euros o que significa que o estado terá recebido imediatamente sob a forma de impostos mais de 700 milhões de Euros, isto é, os 500 milhões que investiu foram rapidamente devolvidos e com um bom juro.
Mas um estudo feito por uma Universidade aqui há já alguns anos calculava que a Expo tinha rendido às Finanças Públicas 4,4 milhões de Euros! (ver aqui)
Depois disto que dizer da Dr.ª Maria Filomena Mónica? Estupidez ou desonestidade?
Publicado no Expresso